quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Dona Fideralina Augusto - Mito e Realidade

 Cristina Couto


O efeito mágico que as águas do Rio Salgado têm feito na vida dos lavrenses sempre foi um verdadeiro prodígio. Seu poder de fertilização edificou na mente dos seus filhos a capacidade de poetizar e de buscar a fundo suas origens.

Em Lavras da Mangabeira (CE) e na região do Cariri ninguém reinou tanto como Dona Fideralina Augusto, mulher forte, que viveu à frente do seu tempo, numa época comandada pelos homens. Ela foi senhora da sua vontade e da vontade de muitos. Nada nem ninguém ousou desobedecer a essa velha matrona.

            Na sua terra natal, tudo parece que virou folclore, como nos contos mitológicos das grandes civilizações, especialmente porque aquele Município viveu todas as suas fases, tais como o nascimento, apogeu e declínio, nos permitindo, agora, uma volta ao seu passado glorioso.

            Dimas Macedo é, hoje, o maior historiador lavrense. Com a sua memória fotográfica e o seu poder de percepção aguçada, capta as histórias perdidas e as informações escondidas. Sua sensibilidade de poeta e sua genialidade intelectual ultrapassam as fronteiras do tempo.

Ao escrever Dona Fideralina Augusto – Mito e Realidade (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2017), Dimas faz justiça com as próprias mãos e com o brilho da sua palavra, contestando as muitas inverdades sobre a velha matrona lavrense. Neste livro, o autor busca resgatar a história como ela é, e não como as pessoas gostariam que ela fosse.

Com a leitura deste livro, o que acabamos descobrindo é que a fênix lendária de Lavras da Mangabeira – Dona Fideralina Augusto –, renasce das cinzas em que muitos dos seus opositores teimaram em enterrar a sua memória.


            Nele, Dona Fideralina Augusto ressurge magnífica, imperiosa e poderosa como sempre foi, e sua história, que outrora fora escrita com estilhaços de pólvora do seu bacamarte, agora acha-se reescrita com a caneta do seu admirador maior e arqueólogo da cultura lavrense, Dimas Macedo.

domingo, 3 de setembro de 2017

A Terra Onde Nasci

Dimas Macedo         
                                                

           Na minha condição de escritor, sempre permaneci fiel ao meu sonho, e Lavras da Mangabeira, a terra onde nasci, nunca me abandonou com as suas belezas, naturais e artificiais.

           Sinto-me em desconforto quando, anualmente, não posso contemplar o Boqueirão ou rever os lugares onde passei a infância, pois, como já afirmou Francisco Carvalho: “Lavras é um mito que o Salgado banha / com seu rumor de pífaro e realejo”, mostrando-nos, assim, esse grande poeta cearense, toda a ressonância da velha Princesa do Salgado.

           Em 13 de dezembro de 2010, quando me encontrava como Professor, na Universidade de Le Havre, escrevi, na minha agenda de viagens, que “reencontrei Lavras da Mangabeira em todas as cidades pelas quais passei em vários pontos da Europa: assim em Londres como em Bruges, Paris, Amsterdam, Bruxelas ou Colônia”.

            E acrescentei: “é como se o mapa-múndi fosse povoado de saudades e lembranças que se gravam nos recessos do sonho. É como se o Reno, o Tâmisa e o Sena refletissem a brisa serena do Salgado, o mais doce de todos os rios que os meus olhos não se cansam de ver”.

            É com estas palavras que desejo saudar os estudantes do Ensino Fundamental da minha terra, lembrando, com o coração cheio de saudades, dos meus tempos de aluno do Grupo Escolar Filgueiras Lima e do Colégio São Vicente Ferrer.

             Destaco a qualidade dos textos, em prosa e em verso, reunidos no livro – Lavras: o Lugar Onde eu Vivo –, escrito por esses estudantes e publicado em 2017, louvando a dedicação dos mestres que se empenharam na realização desse projeto.

            O Magistério é um sacerdócio e uma Missão. Quem descobre essa vocação e a ela se entrega, sabe o quanto isso é uma Graça e um motivo para viver a vida de forma ainda mais feliz.

             Orgulho-me também de ser Professor, função que exerço há quarenta anos. Lembro-me, perfeitamente, como tudo começou, em 1977, e as escolas e universidades pelas quais passei, no Brasil e no Exterior.

           Mas o que conta mesmo, para a minha visão de Professor, são os alunos, são os estudantes envolvidos com as suas atividades e com as suas esperanças e crenças num futuro melhor.

              Nos poemas e textos coligidos percebi um amor bastante carinhoso pela minha terra, especialmente, pelo Rio Salgado; e atentei que alguns alunos mostraram o seu interesse pela trajetória de lavrenses, como José Telles, Sinhá D’Amora, Eunício Oliveira e Maria Lina Machado, destacando-se a última como professora de expressão naquele Município.


            Aos participantes do projeto, apresento os meus parabéns. E não posso deixar de dizer que, nesse livro, se guarda um esforço incomum. Sinto-me feliz com o convite da Professora Lionete Tomaz para apresentar esse conjunto de escritos e de lições de amor à terra que nos viu nascer.

Medalha Boticário Ferreira

Dimas Macedo

                                                                             


          Com alegria, agradeço a Medalha Boticário Ferreira e me pergunto qual o meu merecimento. Quarenta anos de magistério, perfeitos em 2017, talvez justifiquem a homenagem ao escritor e ao jurista, mas, assim como Drummond, o Poeta de Itabira, tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

          Como cristão pauliano, atravesso estes tempos extremos que estamos vivendo como se fosse a ostra em seu enfrentamento com o vento, como se fosse o rumor que, às vezes, se funde com a concha e com ela se recolhe no sopro sublime da paixão.

           Sei que a vida é uma Graça, e que, a cada dia, eu a desfruto com a beleza que Deus nos confiou, e com os dons e os talentos que ele conferiu à minha inquietude: branda, como as águas serenas de um rio, mas incompreendida, às vezes, por aqueles que não aceitam a minha liberdade.  

          O título que recebo é o tributo com o qual se reconhece a dignidade de fazer literatura e de fazer a profissão de fé na palavra ritmada e na palavra fundadora do belo. A honraria, contudo, não cabe no meu contentamento.

           Pulveriza-se, antes, pelos espaços urbanos da cidade, desliza pelas suas casas de pasto e pelos seus polos de prazer e convivência, por onde espicho os meus olhos de ver e de sentir, porque de Fortaleza eu sei as suas ruas e o seu jeito gostoso de deitar.

          Sei que existem várias Fortalezas a quem agradecer: a Fortaleza que sofre com a violência e com sua falta de memória; a Fortaleza que dormita na Praia de Iracema; a Fortaleza que chora as suas contradições, mas que se reinventa pela boemia que pratiquei no Estoril e no Clube do Bode, na Confraria dos Puros e na Sociedade dos Poetas Vivos.

           Sim, porque não podemos mensurar em Fortaleza praias, ruas ou espaços coletivos que eu não tenha palmilhado, vinhos e sabores que eu não haja consumido, línguas ou idiomas da sua arquitetura que eu não tenha degustado com a minha linguagem de poeta.

          Ao Vereador Portinho, agradeço aquilo que ele fez pela poesia, nomeando a mim como o representante dos poetas e intelectuais de Fortaleza que esta Câmara de Vereadores achou por bem distinguir, porque aqui, de primeiro, se premia o escritor e se valoriza o cidadão, colocando-se a Literatura no centro do debate político.

         As tatuagens que o sal e o céu de Fortaleza foram modelando em meu corpo, ouvem, com desvelo, os sinos inquietos do meu coração, pois é com a alma dos que amam a liberdade e as formas de viver em plenitude que aqui compareço para agradecer a maior homenagem desta Edilidade.
          Assim, declaro de público e de tribuna que honrarei com vinhos e estrelas a medalha com que fui distinguido, o título com que fui agraciado, o qual ficará gravado na alma, com o fogo do incenso e da cidadania.

          O Boticário Ferreira, numa época que se perde no tempo, dirigiu o destino desta urbe, e o poço por ele perfurado, no logradouro que hoje leva o seu nome, tornou-se o coração da cidade. Como vereador e presidente da Câmara, governou a Fortaleza Velha com os olhos fincados no futuro e com a retidão que fez do seu nome uma legenda.

          Curvo-me ao exemplo do Boticário Ferreira, olho para o passado de onde vim, saúdo os amigos que nesta cidade conquistei, pondo entre eles a minha família e, de uma forma especial, os meus filhos e a minha mulher. Não cheguei aqui de supetão, mas juro que cheguei, trazendo na alma uma canção, que quero partilhar com o vento e com o edifício da Fé que se ergue, de forma soberana, no meu coração.

         Entre os que estão no Plenário, ponho em evidência o Professor João Arruda, que muito conspirou para que eu pudesse chegar até aqui, e destaco o nome de Marta Filgueiras, que veio de São Luiz para estar comigo nesta noite, ao lado de Lúcia Cidrão, de Pablo e de Diego, de Lúcia Macedo Maciel e de Sandra Maria de Macedo.


          Por último, não posso deixar de registrar: “um rio corre na alma e a minha calma talvez não denuncie aquilo que ocorre, aquilo que não morre e que se faz alento em minha vida”.

Entrevista Com Franklin Jorge


Dimas Macedo



Franklin Jorge - Em que circunstância surgiu o seu interesse pela Literatura?

Dimas Macedo – Eis um assunto que se revelou para mim em forma de mistério. Na infância, quando me perguntavam o que eu queria ser no futuro, eu respondia que o meu desejo era ser escritor. Não sei o que isso representava no meu caso. Eu não tinha livros de Literatura por perto. O meio em que eu vivia era muito pobre e acanhado, assim como eram o mundo e as condições de existência nas cidades do interior do Nordeste, no início da década de 1960. Mas o meu avô – Antônio Lobo de Macedo, conhecido, ainda hoje, como Lobo Manso – era um cordelista renomado e o meu tio Joaryvar Macedo já despontava como pesquisador, firmando-se depois como um dos grandes historiadores do Ceará, com passagens pela Academia Cearense de Letras e o Instituto do Ceará.

Franklin – O que o levou a escrever?

Dimas – A inquietação existencial e cosmológica, as figuras lendárias da política de Lavras da Mangabeira, as histórias contadas pela minha mãe, o rumor das águas do Salgado que passava próximo à nossa casa, a mania que eu tinha em querer contar as estrelas em noites de muita claridade, a fuga do drama que eu via prosperando no seio da minha família, o sino que plangia diariamente na torre da Igreja de Lavras, a teimosia que eu tinha em aceitar os limites da educação formal que me era imposta pelos meus pais, o medo de morrer de forma inesperada, assim como todas as crianças que partiam e cujos enterros passavam pela minha rua, marcando a minha voz e o meu jeito de ser com as suas despedidas.

Franklin – Como definiria o ato de escrever?

Dimas – O ato de escrever para mim é e será sempre será uma pergunta. A claridade das coisas e o absurdo da vida, no meu caso, aguçam a necessidade de perguntar por que estou vivo, por que habito essa fauna tão contraditória e indulgente que é a humanidade mergulhada na sua hipocrisia e na falsificação da verdade. Minha literatura clama pela Viva e pela Esperança, é contraditória, assim como são várias as minhas personas diante da escritura e da palavra. Parece-me que o poeta, o crítico, o historiador e o jurista estão em oposição diante do meu eu profundo. Seriam os meus outros eus, para aqui me valer da expressão de Fernando Pessoa.

Franklin – Como transcorreu sua infância? Alguma coisa, em particular, o marcou nessa fase de sua vida?

Dimas – A minha infância não foi nada fácil. Como disse, certa feita, numa crônica publicada quando ainda era muito jovem: “minha infância nunca teve graça”, pois, doente e com “sentença de morte pela frente”, o jeito que tive foi fantasiar a existência durante a juventude e abraçá-la com resignação na maturidade. Hoje a vida para mim é uma Esperança, edificada na Fé e nas minhas convicções acerca existência do Amor. Mas eu não acredito na salvação do homem pela Fraternidade, nem acredito que a Política ou suas ideologias possam resolver os grandes problemas sociais. Nesse ponto, acho que sou um cético, mas na minha essência profunda eu não me considero um pessimista. 

Franklin – Como descreveria a contribuição do Ceará à Literatura Brasileira?

Dimas – O Ceará deu ao Brasil uma grande contribuição à Literatura. Desde José de Alencar e Araripe Júnior, passando por Domingos Olímpio, Adolfo Caminha, Antônio Sales e Oliveira Paiva, tem sido expressivo esse contributo. José Albano é um poeta de grande inspiração e elaboração estilística; os romances de João Clímaco Bezerra e Rachel de Queiroz, os contos de Moreira Campos, a ficção de Herman Lima, a poesia de Francisco Carvalho e Gerardo Mello Mourão, o teatro de Eduardo Campos, a estética exemplar e simbólica de Alcides Pinto, sobre a qual escrevi o livro A Face do Enigma, e a criação literária de Natércia Campos e Nilto Maciel fazem do Ceará um território literário expressivo cujas marcas são a expressão da palavra levada às últimas consequências.

Franklin –  O que distingue, a seu ver, os escritores cearenses contemporâneos dos escritores históricos? Há algum traço discernível entre eles?

Dimas – Os escritores contemporâneos afastaram-se um pouco do drama secular e da tragédia que remarcaram a nossa formação, mas em poetas como Adriano Espínola e Luciano Maia (principalmente, neste último) vemos o Ceará redesenhado, pela luminosidade do sol e pelo mito da sua redenção através da transfiguração do Rio Jaguaribe. Carlos Emílio Correia Lima é um escritor que me parece injustiçado e Audifax Rios é um romancista que precisa ser avaliado. Nos dias atuais, eu citaria a poesia de Roberto Pontes, Horácio Dídimo e Linhares Filho, e destacaria a ficção de Pedro Salgueiro e Tércia Montenegro, elevando a um posto mais alto os romances de Ana Miranda.
  
Franklin Jorge – Como descreveria a vida cultural do Recife em relação a de Fortaleza?

Dimas – Eis um pergunta que continua nos desafiando. A vida cultural de Recife é pujante e em seus intelectuais se pode colher uma maior consciência política. Fortaleza é mais provinciana e os seus muros ainda são feitos de palhas de coqueiro, apesar dos seus grandes achados culturais e estéticos, como é o caso da Academia Francesa e da Padaria Espiritual. Coisas típicas da formação política dessas duas cidades, tão próximas e tão distantes em face dos processos sociais, industriais e políticos e que se diferenciam, também, desde a base das suas inserções em áreas mais ou menos extensas do nosso semiárido.

Franklin – Crê que o Jornalismo, como o conhecemos, caminha para a dissolução e desaparecimento?

Dimas – Não acredito na hipótese da dissolução do jornalismo tal como o conhecemos hoje. As suas formas de expressão se transformaram, está havendo uma pluralidade de nichos editoriais, a sua qualidade está muito pior, mas a dissolução que vejo no jornalismo é a dissolução da verdade, a falsificação do fato, a negação da reportagem que já não é a mesma e que se dissolve, também, pela necessidade de criação da notícia, imposta pela velocidade da vida exposta nas redes sociais, que precisam ser alimentadas, ainda que tenhamos que matar o nosso semelhante em nome da cegueira que atravessa o espaço midiático. É, parece que já estou concordando com a sua pergunta, e isso já é motivo para ressaltar que precisamos discutir com mais profundidade esse tema de tão alta relevância. 

Franklin – Como e em que circunstância conheceu Nilto Maciel? Como vê a sua contribuição à Literatura e o seu trabalho de divulgador dos escritores brasileiros? Como o descreveria?


Dimas – Perdem-se no tempo as minhas andanças e os meus colóquios com Nilto Maciel. Um dos raros escritores incomuns na Literatura brasileira das últimas décadas, infelizmente, desaparecido. A nossa produção literária e a geração de escritores seus contemporâneos muito devemos à sua liderança e influência. E tanto mais, somos devedores da sua criação literária, original e desafiadora. Nilto Maciel escreveu uma obra de gênio, uma escritura de corte sintético e de alcance simbólico que primam pela correção gramatical e pelo refinamento estético e estilístico. Sem nenhuma dúvida, Nilto é uma dos nossos maiores escritores. Seu trabalho de divulgação dos autores brasileira talvez encontre poucos exemplos com os quais possa concorrer. A criação da revista O Saco, em Fortaleza, ainda na década de 1970, e a repercussão alcançada pela sua proposta, mexeram, profundamente, com a nossa literatura. Depois, já residindo em Brasília, Nilto Maciel fundou a Editora Códice e a revista Literatura, cuja trajetória todos nós conhecemos. Associei-me a ele nesses dois últimos projetos. Mantive com ele uma correspondência franca e proveitosa, especialmente, na época que escrevíamos à mão ou de forma datilografada. Talvez essa correspondência valesse alguns volumes, se ainda estivéssemos na época em que a escritura feita dessa forma tinha o seu significado. Sempre irônico e resignado com os tormentos da sua vida interior inquieta, Nilto Maciel era, no entanto, uma viajante, e viajante em todos os sentidos. Não demorava muito em um mesmo endereço. Trocou a cidade de Baturité, onde nasceu, por Fortaleza. Depois, mudou-se para Brasília, onde desempenhou as suas funções de burocrata, como funcionário do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, lastreando-se no seus conhecimentos de Bacharel em Direito. Mas isso conta muito pouco na sua biografia, pois o que importa destacar na sua vida é a Literatura, que fundamenta toda a sua vida enquanto destino e vocação. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Centenário de Gustavo Augusto Lima

Dimas Macedo
                                                                     

          Nascido aos 5 de janeiro de 1917 na cidade de Lavras da Mangabeira. Filho do Cel. João Augusto Lima e de Marieta Leite Lima. Fez o curso primário na terra natal e o ginasial no Ginásio do Crato e Colégio Castelo Branco, em Fortaleza, de 1929 a 1934.

           Ingressou na Escola de Agronomia da Universidade Federal do Ceará, em 1936, para diplomar-se Engenheiro Agrônomo em 1939, profissão a que deu notável desempenho, como funcionário público e cientista dos mais conceituados.

         Em Fortaleza, foi servidor do Tribunal de Contas do Estado e subassistente da Secretaria de Agricultura. Por seis meses, serviu ao Instituto Baiano do Fumo, na Estação Experimental de Afonso Pena, na Bahia.

           De regresso à terra natal, exerceu as funções de secretário da Prefeitura e o cargo de prefeito municipal, por duas vezes, a primeira de 31 de março de 1946 a 10 de março de 1947, por nomeação do Interventor Pedro Firmeza, e a segunda, de 6 de janeiro de 1948 a 31 de janeiro de 1951, eleito que fora a 8 de dezembro de 1947.

        Na cidade que lhe serviu de berço, foi encarregado do Fomento do Fumo, resultante de acordo firmado entre o Estado do Ceará e o Município de Lavras, e ali criou o serviço de combate à saúva, debelando mais de vinte mil sauveiros existentes no município.

         Como prefeito de Lavras da Mangabeira, foi profícua a sua administração, destacando-se a instalação do Posto Agropecuário e da Usina de Eletrificação da cidade, a criação do Colégio Agrícola, a construção dos prédios da Prefeitura Municipal e dos Correios e Telégrafos, a reconstrução do Grupo Escolar.

       No Colégio Agrícola por ele edificado, exerceu as funções de Professor Catedrático de Agricultura Geral e Especial e o cargo de diretor, nomeado por portaria de 31 de dezembro de 1953, exercendo a direção desse estabelecimento de ensino até 28 de maio de 1963.

          Do posto de Professor, afastou-se para exercer o mandato de Deputado Estadual, função que exerceu de 30 de maio de 1963 a 8 de dezembro de 1965. Na tribuna da Assembleia Legislativa, muito reivindicou em favor do seu município e do ensino agrícola no Ceará, tendo apresentado diversos de projetos de leis em prol do desenvolvimento agrícola do Ceará, fazendo de Lavras da Mangabeira o centro das suas atenções.

         Em 1967, reassumiu as funções de professor do Colégio Agrícola, cargo que ocupou por bastante tempo. Cientista e escritor, membro da Associação de Engenheiros Agrônomos do Ceará e do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia, é autor dos livros: A Cultura do Arroz (1973), A Cultura do Milho (1976), A Cultura do Feijão-de-Corda (1980) e A Cultura da Cana-de-Açúcar (1984).
Para o escritor Pereira de Albuquerque, o que mais o fascinava esse notável lavrense “era o exercício do magistério, bom professor que era. A sala de aula era o seu palco preferido. Aí, sim, cercado de alunos e dissertando sobre agricultura, oferecia o melhor de si”.

           Foi um dos mais eficientes prefeitos que Lavras da Mangabeira conheceu e um dos seus maiores beneméritos. A sua retidão, o seu humanismo e a sua devoção à causa social e educacional constituem um exemplo de vida e de trabalho a iluminar as novas gerações.

     Como destacou João Alves Teixeira, em artigo publicado no jornal O Povo, enquanto prefeito de Lavras “ele revolucionou, inovou, construiu, conseguindo milagres, verdadeiramente surpreendentes, na área sócio-educativa-assistencial”.

          Tendo falecido aos 28 de dezembro de 1988, a sua trajetória de vida encontra-se retratada no livro – Gustavo Augusto Lima: 1917 – 2017, de Rejane Monteiro Augusto Gonçalves (Fortaleza, 2017), sendo ele Patrono de uma das cadeiras da Academia Lavrense de Letras.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Meus Sessenta Anos



           Dimas Macedo
                                                                           

            Comemoro os meus sessenta anos saboreando aquilo que mais aprecio: os prazeres da Literatura e o gosto sereno das palavras com as quais reinvento as minhas travessias. Dolorosa seria a minha vida se eu não pudesse ser o escritor no qual me transformei.

           Sou um amante excessivo do desejo, um esteta cuja expressão nunca é alcançada, um ser carnal e resoluto, um agiota da música e do silêncio, um místico cuja obsessão é a ausência ou o triunfo supremo da linguagem.

           Existencialista até a medula de todos os sentidos, não espero da vida senão a energia para continuar amando, senão a renúncia de tudo aquilo que aspiro, senão a fuga em busca das respostas, senão a solidão e os vinhos com os quais alimento os meus heterônimos.

           Sei que o poeta, o homem e jurista que representei irão sucumbir, silenciosamente, após a minha morte; e que ficarei, talvez, qual um retrato na mente de um amigo, qual uma corda lançada no abismo, em busca daquilo que nunca será encontrado. 

           Diante dos sessenta anos, percebo o tamanho da minha pequenez e da minha insignificância. Sei que nada sou, que nada serei e que as minhas cinzas serão esquecidas, que os meus livros e os meus registros serão apagados e que viverei em poucos corações, e que apenas o corpo de um Anjo provou o sal da minha boca.

           Confesso que nada tenho para confessar, que nenhuma palavra me resta dizer e que este artigo foi escrito em testemunho do meu esquecimento e em tributo à vida da forma como eu a vivi: livre, desembaraçada, aberta, recheada de defeitos e inacabada como a minha obra literária. 

           Do que posso me orgulhar de ter feito? Orgulho-me porque eu trouxe ao mundo a existência dos meus filhos, porque me entreguei ao Amor quando eu achava que a vida já tinha terminado.

           Todos os tecidos da existência são solúveis, e todos os desejos que nascem, a tirania dos homens procura reprimir com as suas normas desumanas. Eis a religião na qual acredito. O resto será a paródia da vida e o silêncio, e a composição de um poema que nunca será terminado.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Reedição Deleitosa da Liturgia do Caos


               Vianey Mesquita


                                                                       As ideias inflamam umas às outras como faíscas                                                                                                      elétricas. (JOHANN JACOB ENGEL, filósofo                                                                                                         tedesco. Parchim, 11.09.1741 - 26.06.1802).
                                                                             
            Eis que me chegou de improviso, sem qualquer recado prévio e recebido de presente da parte do acadêmico Geraldo Jesuino, a segunda edição do cânon poético, objeto da titulação deste comentário, oriundo da colheita fartamente produtiva do ecumênico escritor Dimas Macedo. 

            Lavrense dos mais ilustres, ele é componente de uma admiranda fileira de conterrâneos militantes em vários terrenos da produção intelectiva, com ativo fixo de 35 livros, dos quais foram sacadas várias reedições, fato que ajuda, en passant, a se mensurar, conquanto por cima, a axiologia qualitativa dos seus bens literários de raiz. 

            Sem dúvida, é apontamento favorável, registro propício à história cultural da nossa Terra, recheio novo para seus armazéns caligráficos, não somente porque se esgotara a príncipe vintenária, cujo rebento foi delivrado em 1996, mas, em especial, pelo fato de que concede ao público mais verde na seara poética o lance de se aprofundar nos pés mimosos dos seus metros brancos, insuperáveis no engenho estrófico e inexcedíveis em fascínio e entusiasmo.

            O Cantor de Estrela de Pedra (1994) e Vozes do Silêncio (2003) detém uma lista fecunda com proveitos de boa monta até hoje publicados, aliás, evento pouco comum em se referindo a escritores do Ceará e de outras unidades federadas menores. Eo ipso, atraiu imensa aleia de admiradores, mediadores de nomeada, apreciadores honestos e desinteressados, arquitetos circunspectos da palavra, os quais o acolitam, às dezenas, ao retratarem com detenção e compostura analítica os seus escritos, enricando, pro rata tempore, o romaneio crítico afortunadamente amealhado por Dimas Macedo, em sua tematicamente multímoda pilha librária, iniciada em 1978, com a vinda a público de Cor de Estrela, contando ele 22 anos de idade.

            Para unicamente demarcar o sinal de seus haveres críticos, é suficiente informar o leitor de que, somente nas guarnições da segunda edição do Liturgia do Caos (2016), tem registo a opinião alçadamente positiva em nada menos de sete juízos analíticos, expendidos por figuras da intelectualidade nacional, em cujo meio se expressam, por exemplo, José Alcides Pinto, Jorge Tufic e Antônio Justa, acrescendo-se o Prof. Dr. Roberto Pontes, também escritor cearense de renome em todos os países de glotologia lusofônica, o qual assinou matéria, inserta  na quarta capa da edição sob comento, publicada no O Pão, de 10.12.1997.

            Sobejamente me apraz a mim, consequentemente, proceder a este registro, na convicção de que o livro transmitirá, segundo fez comigo, a mais completa satisfação a consulentes afeitos à poesia de alteada qualidade, ao jeito como soem ser as do Escritor lavrense – um das dezenas que há por aqueles pagos, a quem o Criador concedeu dotes, a destra cheia, para o ofício de edificadores de textos e portadores de outros apercebimentos científicos e culturais, a for dos casos - verbi gratia e entre os constantes de um alentado catálogo - de Almir (dos Santos) Pinto, João Gonçalves de Souza, Linhares Filho, Filgueiras Lima e Batista de Lima.

            Guardo com orgulho o fato de já haver tido sob glosa o meu antepenúltimo trabalho, intitulado Nuntia Morata – Ensaios e Recensões (2014), em subida exegese positiva do Prof. Dr. Dimas Macedo, ao mesmo passo em que armazeno a felicidade de ter logrado poder comentar livros seus – e com os aprovos e aplausos – como o ocorrido com A Metáfora do Sol e Direito Constitucional, seções de meu Reservas de Minha Étagére – Aproximações Literocientíficas (no prelo).

            Desta arte e a jeito de fecho, performo novamente a expressão do meu júbilo pela ocorrência da segunda edição de Liturgia do Caos, do Prof. Dr. Dimas Macedo, livro a conceder à Arte Literária coestaduana o atestado de veracidade e essência, configurado no caráter de correção (desta literatura e da pessoalidade de seu Autor), e a peculiar inseparabilidade elocutória, cujo estilo o consulente bem aprestado conhecerá desde as primeiras linhas, mesmo sem ter visto sua assinatura, no âmago de sua [...] palavra lírica, telúrica, metafíisica, erótica, mutante, conforme dicção de Jorge Tufic, n’A Crítica, de Manaus – outubro de 1996.

            Glorifique-se, por derradeiro, um dos melhores poemas da segunda edição, a repousar no tratamento gráfico magistral concedido pelo Prof. Geraldo Jesuino da Costa, aformoseando, plástica e superfluamente, a então já copada e frutuosa árvore do nada caótico, mas bastante litúrgico volume.

            Benedicamos Domino!