terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Direito de Família: Uma Visão Transformadora

             Dimas Macedo

   O estudo metadogmático do direito, isto é, aquele que transcende à rigidez e ao formalismo dos dispositivos legais, é o fenômeno mais visível da ciência jurídica nos últimos tempos. O pluralismo político e a massificação democrática, agregados às mais diversas formas de expressão da cultura, parecem mesmo ter abalado as certezas que os pensadores erigiram acerca do conhecimento. 

   Diante desse quadro, a visão transdisciplinar que se possa aplicar no processo de perquirição de uma dada realidade parece ser, de forma sedutora e sempre cativante, o melhor caminho para um aprendizado sólido e erudito. A abordagem crítica, o pensar alternativo, a pesquisa tópica, o recurso à zetética e às formulações teóricas contra­dog­máticas, entre outros métodos aqui não referidos, têm promovido uma verdadeira reviravolta na velha árvore da ciência jurídica.

   Direito de Família – Uma Abordagem Psicanalítica (Rio, Editora Forense, 4ª ed., 2012), de Rodrigo da Cunha Pereira, é um livro que me parece remarcado pela compreensão desses elementos, com a ousadia de ferir um argumento novo, que é a busca da Psicanálise como suporte de interpretação do Direito de Família enquanto realidade normativa e instituição social em fase de mudança.

   Com efeito, sinto-me confortado em poder concordar com o autor quando ele questiona a transformação profunda pela qual tem passado o Direito de Família e a própria instituição familiar, não só no plano psicossocial e filosófico, mas também e principalmente no enunciado da sua formulação constitucional e estrutural.

  Por outro lado, quando externa o seu entendimento de que o Texto Magno de 1988 foi tímido na formulação de um perfil da família, mas reconhece, em contrapartida, que “ele é a tradução fiel da família atual”, cada vez mais plural e diversificada, o Rodrigo da Cunha Pereira testemunha um dos seus melhores acertos.

   Tendo como ponto de partida das suas abordagens o pensamento de Jacques Lacan e de Levi-Strauss, e passando por Freud e pela Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, o autor surpreende quando chama a teoria de Kelsen à colação. Normas fundantes da conduta sexual/normas fundantes da instituição familiar, rejeitadas as teorias da promiscuidade da organização familiar primitiva, é uma das teses que mais seduz o autor.

   Rodrigo da Cunha Pereira se vale da Teoria Geral das Normas do conhecido pensador e jusfilósofo Hans Kelsen, reconhecidamente o grande sistematizador da ciência do direito, para ressalvar a norma fundamental da moral familiar como categoria fundante das normas gerais que regem o Direito de Família.

    Na visão do autor, tanto Kelsen como Freud, ao investigarem as origens das leis, parecem ter se deparado com o mesmo referencial, no caso a primeira lei, aquela que constituiria a base e o pressuposto da cultura, da organização da linguagem e das relações entre os homens, ou seja, uma lei que é fundante de nossa estruturação psíquica, tudo isso a partir de uma conexão com a ética das relações sexuais, desde as suas manifestações tribais ou primitivas.

   As conclusões do autor, tanto neste quanto em outros pontos da sua pesquisa, são de todo pertinentes e de altíssima significação. As abordagens estão respaldadas em dados estatísticos e em sólida doutrina de autores clássicos e modernos. 

    Daí ser possível ao Professor Rodrigo afirmar que o material por ele pesquisado revela-nos “além de situações familiares, aumento e diminuição de casamentos e separações, mudanças nas formas de constituição da família”, concluindo também que, “com todas as evoluções e mudanças, a mulher vem sendo elemento definidor na quebra da estrutura patriarcal”.

   Com estas notas e tendo em vista as conclusões a que cheguei, acredito ter apresentado, ainda que de forma sucinta, o livro do Professor Rodrigo da Cunha Pereira: Direito de Família – Uma Abordagem Psicanalítica, cuja leitura eu considero indispensável a quantos militam no campo do Direito, especialmente os que se interessam pelo Direito da Família e pela sua transformação institucional.

Roteiro de Farias Brito

      Dimas Macedo
  



      Quando pensei escrever as linhas fundamentais do meu livro Pensadores Cearenses, foi Farias Brito um dos primeiros nomes que defini para o projeto. A filosofia espiritualista por ele desenvolvida, de forma original e soberana, talvez justifique o meu amor renovado pela sua obra.

         A mística panteísta de Alcântara Nogueira, o fervor social da ideologia de Joaquim Pimenta, a metodologia da pesquisa histórica de Capistrano de Abreu, o culturalismo filosófico de Djacir Menezes, o normativismo democrático de Arnaldo Vasconcelos e a crítica social de acento literário, que permeia a obra de Raimundo Antônio da Rocha Lima, sempre me pareceram monumentos da cultura brasileira e orgulho supremo da cultura cearense.

       Nenhum momento da cultura brasileira, no entanto, me parece superior à obra filosófica de Farias Brito. O seu pensamento e a originalidade da sua expressão analítica, o mergulho transcendente que empreendeu em busca da verdade e das formas superiores do conhecimento ficarão pelos séculos tal uma luz misteriosa para os pensadores de todas as idades.

           Farias Brito é tão universal quanto Kant, e a sua reflexão, plural e instigante, é tão importante para o homem quanto a contribuição de Espinosa ou a mística de origem divina que reparte o mundo e os sentidos maiores da contemplação.

           Não precisou de escolas ou universidades para desenvolver as suas teses, nem de legitimação oficial para a proteção da sua pesquisa criadora; e não necessitou de doutrina pretérita para testificar as inquietações do seu ser em comunhão com a luz soberba da razão.

            Foi um criador de formas e sentidos, um especulador de conteúdos profundos e um desbravador de códigos e de dígitos esse cearense que Deus colocou na noite escura do homem. Foi, portanto, um eleito, esse cearense pobre de São Benedito, esse pária social elegante e desafortunado que o amor de Deus escolheu para anunciar a nova lógica cultural que as forças materiais haviam sufocado.

            Farias Brito nasceu no Ceará, nas escarpas da Serra da Ibiapaba, onde se encrava atualmente São Benedito, aos 24 de julho de 1862, e faleceu no Rio de Janeiro, aos 16 de janeiro de 1917.

            Optou, como muitos brasileiros do seu tempo, pelo bacharelado em Direito, formando-se em Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito do Recife, em 1884. 

            Foi Promotor Público e Secretário de Estado em sua província de berço, agitou a vida cultural do Ceará no último quartel do século dezenove, e verberou as suas inquietações e os seus libelos sociais na imprensa da época em que viveu.

           Farias Brito fez-se Professor do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, através de memorável concurso, mas perdeu o direito de nomeação para Euclides da Cunha. Porém nada foi superior em sua vida do que a paixão de ordem filosófica.

           Poeta no início da sua trajetória, Farias Brito tornou-se com o tempo o filósofo puro da reflexão e da contemplação. A finalidade do mundo, o mistério que ronda a existência de todas as coisas, a vida do espírito e a sua energia inesgotável, os tormentos do ser e o triunfo final da vida interior – eis os assuntos do seu particular afeto e da sua inquietação e sede sempre renovada de pesquisa.

            Autor de A Filosofia Como Atividade Permanente do Espírito (1894), Filosofia Moderna (1899) e Evolução e Relatividade (1905), que formam o tratado de Finalidade do Mundo, Farias Brito publicou ainda O Mundo Interior (1914), A Base do Espírito (1912) e Cantos Modernos (1889).

             No Brasil e no mundo, muito já se escreveu sobre a obra desse notável cearense, muito já se disse contra e a favor da sua criação, mas a sua vida e o seu legado filosófico ainda constituem um desafio para todos nós. E um desafio também para o escritor cearense, Antônio Carlos Klein, que se dispôs a tracejar o seu itinerário, num livro de caráter didático que ficará, por certo, qual uma referência sobre a vida e a obra desse grande filósofo das Américas e da civilização do Hemisfério Sul.

           Refiro-me ao último volume da coleção Terra Bárbara, das Edições Demócrito Rocha, que traz por título justamente o nome do homenageado desta resenha, e que foi escrito com paixão e seguro domínio do seu objeto de pesquisa. 

            Autor da biografia de Paulo Bonavides, publicada no âmbito da mesma coleção, ofereceu-nos em seguida Antônio Carlos Klein o perfil biográfico de Farias Brito (Fortaleza, Edições Demócrito Rocha, 2004), firmando assim o seu nome como uma das expressões mais acabadas da nova geração de pesquisadores do Ceará e do Brasil.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Mário Pontes: Um Homem Chamado Noel

                   Dimas Macedo



            Talvez Mario Pontes não saiba que eu o conheci em 1983, “numa expressiva reunião de intelectuais”, no Lunas Bar, Rio de Janeiro, tal como registrei meu livro Leitura e Conjuntura (Fortaleza: Edições Secult, 1984); e que naquele momento eu já o admirava como um dos meus escritores prediletos.

            Creio que Mario não se lembra de nada sobre isto: que eu sentei-me confortavelmente ao seu lado para admirar, ainda mais, a sua prosa e ouvir o elogio que ele fazia, de corpo presente, à produção jornalística e teórica de Luís-Sérgio Santos, meu editor no Suplemento de Cultura do Diário do Nordeste.

            A minha primeira viagem ao Rio de Janeiro, naquele ano de 1983, se fazia pelas mãos de Roberto Pontes e a acolhida generosa de Pedro Lyra e de Normanda, em cujo apartamento nos instalamos para conferir a Primeira Bienal Internacional do Livro, representantes que éramos, Roberto Pontes, Luís–Sérgio e eu, da Associação Profissional dos Escritores do Ceará. 

            Lembro que Maura Sardinha, da Editora Antares, presenteou-me não somente com o livro Celebrações do Outro (1983), de Ana Miranda (com a presença de Ana Miranda entre nós), mas também com o romance O Coração é um Caçador Solitário (Rio: Editora Antares, 1983), de Carson McCullers, sobre o qual Mario havia escrito veemente, o que me fez admirar ainda mais a sua virtuose.

            Editor do suplemento literário do Jornal do Brasil e jornalista de renome em Fortaleza, onde publicou o seu primeiro livro (Brevidade, 1966) e ajudou a cozinhar a edição de vários jornais cearenses, Mario Pontes já era, na época em que o conheci, o fascinante autor de Milagre na Salina (Rio: Editora Brasília/Rio, 1977)longa ficção a que me refiro em A Metáfora do Sol (Fortaleza: Editora Oficina, 1989) – e de um livro de ensaios sobre literatura de cordel - Doce Como o Diabo (Rio: Editora Codecri, 1979).

            Posteriormente, Mario Pontes nos daria o maior de todos os seus livros – Ninguém Ama os Náufragos (Rio; Editora Nova Fronteira, 1981), além da novela Chora Violão (1985), e do livro de contos – Andante Com Morte, editado pela Bertrand Brasil (1999), firmando-se também como um dos nossos melhores tradutores. Admirador da sua trajetória de cronista e da sua sensibilidade literária, decidi incluir o seu nome no meu livro Crítica Imperfeita (Fortaleza: Imprensa Universitária, 2001) entre os escritores que ilustraram o Ceará para além das fronteiras do Estado.

            Em outubro de 2003, vinte anos após o nosso encontro no Rio de Janeiro, Mario Pontes continua muito longe e muito próximo de mim. E tanto que, assim, preparando-me para aterrissar em São Luís, em gozo de licença poética, Natalício Barroso, a quem não posso faltar uma vírgula, sequer uma vírgula, pediu-me que levasse comigo na bagagem, para os meus lençóis e as minhas fazendas maranhenses, o mais novo livro de Mario – Um Homem Chamado Noel (Fortaleza: Edições Funcet, 2003) –, com a observação de que escrevesse as linhas impressões de leitura. 

            “Para que isso, Natalício”? Perguntei um tanto quanto incomodado. Natalício sorriu e entendi que não havia saída. Pendurei-me, então, nos moinhos de vento da Praia do Calhau e no Reviver de São Luís do Maranhão. Pensando no que é glória de ser escritor e de sentir a pulsação de um estro literário maior. E assim fui lendo preguiçosamente os contos do Mario e preguiçosamente não fazendo nenhuma anotação. Limitei-me a ouvir uma voz, a de Lucas, que me encantou desde o primeiro texto do volume.

             Presente em cada uma das narrativas do livro, a voz onisciente de Lucas parece formatar, a cada passo, traços indeléveis da personalidade do autor, ora como testemunha, às vezes, como narrador, mas no geral e fundamentalmente, como estrutura polifônica da escritura literária de Mario. 

             Nos contos reunidos em Um Homem Chamado Noel, segundo o seu editor, “o leitor encontrará algumas figuras curiosas, como o patético ancião que fez de seu velho automóvel um jardim suspenso e festeja o 7 de Setembro percorrendo a cidade no lombo de um pangaré, empunhando uma bandeira que desafia todas as leis da heráldica; a mascote de um time de futebol com quem o destino foi particularmente impiedoso; o soturno Noel, que vive de glórias irrecuperáveis”.

Nesse livro novo de Mario, de alguma maneira, encontro o fechamento de uma proposta literária que o autor semeou no volume de estreia – Milagre na Salina –, pois que em ambos se guardam um fio condutor das narrativas e uma mesma unidade morfológica, elementos que se projetam, às vezes, no seu tecido estilístico, com acentos em toda a tessitura semântica dessa quase novela de Mario.

               Claro que se trata de um livro de contos, sem nenhuma duvida.  Contos com a melhor técnica da historia curta.  Mas Um Homem Chamado Noel, pode ser lido também como um romance.  O romance de Lucas, possivelmente um alter ego do autor, que se reparte, nesse livro, entre os muitos apelos da memória e os Fios de Ariadne da escritura literária.

               Uma teia de fragmentos que se unificam, contraditoriamente, em face do desenho da letra e da escrita polifônica que permeia as estórias de Lucas, que vão desde a descoberta do mundo do personagem principal dos contos de Um Homem Chamado Noel até o limite maduro da condição humana com que se defronta o narrador no ultimo texto do volume.

              Um romance? Talvez. Possivelmente um gênero ou qualquer coisa de corte literário elevado (e refinado), provando-nos o autor que a literatura, quando muito pouco, é fundamentalmente isto: entretenimento e representação; e quando muito grande, como aquela que neste livro se lerá, é tudo o que acima falei e muito mais: é aquilo que se faz com as formas da estética para que as linhas da estética se façam os fios da memória e o tecido maduro da arte literária.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Trajetória de Joaquim Pimenta


                  Dimas Macedo

 
            Entre os fundadores da teoria social do Brasil, no século XX, eu destacaria o nome glorioso de Joaquim Pimenta. Sociólogo, jurista, pensador da cultura e memorialista, Pimenta foi um dos raros intelectuais, entre nós, que fez da sua práxis política um exemplo de vida e um testemunho de ação a serviço do bem.

           Nascido no município de Tauá (CE), aos 13 de janeiro de 1886, e órfão de mãe aos nove anos de idade, Pimenta fez da sua inquietude um projeto de atuação social e intelectual que sempre deixou em polvorosa o poder institucional e político de vários governantes da federação.

          Vítima da oligarquia acciolina no Ceará, quando ainda estudante de Direito, em Pernambuco enfrentou reveses ainda mais ferrenhos e desafiadores. Se em Fortaleza fundou jornais e revistas e liderou a juventude universitária do seu tempo, no Recife a sua atuação se fez no campo da resistência política à opressão.

           Em 1910, conclui o Curso de Ciências Jurídicas Sociais e é nomeado Promotor Público do Recife, mas em seguida renuncia ao cargo para lutar contra a tirania política do Governador Rosa e Silva. Ferido de morte a partir de bala de revólver, disparada por pistoleiro de aluguel, deixa a liderança da revolução social que pretendia implantar em Pernambuco e segue para o Rio de Janeiro, como forma de preservar a sua vida então ameaçada.

           Ainda no Recife, protagoniza uma das disputas mais célebres em torno de um concurso público no Brasil, que foi aquela que travou com Assis Chateaubriand em torno da cadeira de Direito Romano e do título de Professor Livre-Docente da Faculdade de Direito do Recife. Não ganhou a Cadeira, mas nada impediu que se tornasse depois Professor Substituto da mesma Faculdade, regendo desta feita, a disciplina Economia Política e Direito Administrativo.

             No Rio, tornou-se jornalista profissional e fez-se Professor Catedrático da Universidade do Brasil. Mas, se do Recife foi defenestrado à bala e impedido de exercer o mandato parlamentar de deputado, no Rio encontrou o caldo de cultura para implementar a sua atuação.

          Joaquim Pimenta foi um dos ideólogos da Aliança Nacional Libertadora no Nordeste, em 1930, e nesse mesmo ano é nomeado Consultor Jurídico do Ministro do Trabalho, juntamente com Evaristo de Moraes. 

         Procurador do Trabalho, no Rio, opta, a partir de 1937, pelo cargo de Professor de Direito Industrial e Legislação do Trabalho. E faz-se então e pelo resto da vida o teórico consumado e o ideólogo fervoroso da Sociologia do Trabalho e do Direito Trabalhista, sem nunca perder o vigor diuturno do militante político cujo exemplo protagonizou entre nós como ninguém.

           O escritor de texto social poderoso, o filósofo da ideologia trabalhista, o jornalista da veemência analítica e da reportagem com poder de dinamite e destruição é, no entanto, o que vai definir o seu estatuto cultural no campo da reflexão e da enciclopédia que a sua produção representa.

          Entre os seus livros, cabe enumerar os seguintes: Ensaios de Sociologia (1915), Sociologia e Direito (1928), Golpes de Vista (1930), A Questão Social e o Catolicismo (1936), Cultura de Fichário (1940), Retalhos do Passado (1949), Enciclopédia de Cultura (1955), Sociologia Econômica e Jurídica do Trabalho (1957) e O Homem de um Olho Só (1962).

           Dos livros acima, um deles, por si só, vale qual um monumento da cultura brasileira. Trata-se da Enciclopédia de Cultura, de 1955, republicado posteriormente em dois volumes, em 1962, pela Livraria Freitas Bastos do Rio de Janeiro. 

          Esse trabalho de Pimenta, ao lado de Retalhos do Passado, de 1949, compreende talvez o maior esforço de um intelectual brasileiro em fixar em livro um testemunho plural e instigante de um tempo histórico e sua significação social e cultural, de forma abrangente e totalizadora.

            E sendo Joaquim Pimenta um monumento da sociologia jurídica do Brasil, lógico seria esperar que alguém se interessasse por escrever a sua biografia aliciante. E é justamente isso o que fez um conterrâneo e discípulo fervoroso de Joaquim Pimenta, o advogado, escritor e professor universitário Edmilson Barbosa, traçando o seu perfil cultural em Joaquim Pimenta (Fortaleza, Edições Demócrito Rocha, 2004).

             A pesquisa de Edmilson Barbosa se impõe, de início, pelo seu abrigo na Coleção Terra Bárbara das Edições Demócrito Rocha, onde são acolhidos os relatos, de feição didática tão-somente, sobre a vida e a obra de grandes cearenses, o que já é um atestado da legitimidade dessa coleção.

             O livro de Edmilson Barbosa, no entanto, tem uma virtude que o destaca dos demais: nele, o retrato político do homenageado se sobrepõe ao traço biográfico de cunho pessoal. É uma biografia de ideias, como de ideias e ações culturais proveitosas é o perfil acadêmico do autor: um dos intelectuais mais talentosos da sua geração e um dos nomes de ponta que a cidade de Tauá legou à cultura jurídica do Brasil.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Infância - Poema

                       Dimas Macedo







                    Amaram-me na infância                             
                    com uma voz chegada de outras coisas,     
                   pois não sabiam das minhas atitudes            
                   e eu trazia comigo uma tristeza          
                   encarada como uma montanha        
                   abaladora.   
                   Minha poesia se multiplicava                    
                   num canto de urgência                                    
                  e ninguém sabia                                            
                  das aventuras que eu perseguia:            
                  sonho,  assim, por um vale profundo,
                  consumindo-me sem razão, lado a lado...      
                  E misturaram um sabor amargo                   
                  aos meus versos                                             
                  e os meus sentidos fizeram-se desatados
                  como sandálias na companhia                      
                  de terras poeirentas.   
                  Aquele era meu caminho,                            
                  entre estradas batidas e fatigadas,           
                  com rostos que imploravam,                          
                  e a fisionomia de todos era como a fome. 

                          14.06.1978
                         (in A Distância de Todas as Coisas, 1980)



quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

As Aventuras do Professor Closeau



       Dimas Macedo


                                                                                               Tela de Ana Costalima

                O discurso erótico e a concretização da libido constituem um dos traços mais acentuados da cultura de todos os povos primitivos. Tanto no nascedouro do processo produtivo, quanto na fase ágrafa de expansão do culto do desejo, a ascese de nível corporal já demonstrava saber conciliar as aspirações do homo naturalis com os eflúvios da divindade e suas formas plurais de energia.

     A dimensão erótica, em todas as culturas primitivas, nunca se mostrou dissociada do sagrado, ainda que o céu e o cosmos e ainda que o éter e os astros, nos relatos da antropologia e de outras ciências correlatas, se mostrem como elementos integrantes dessa cosmologia erótica e planetária.

     O processo produtivo, a invenção do mundo do trabalho, a historicidade das relações sociais, a substituição do afeto (corporal e transcendente) pelo fetiche da mercadoria e pelas ilusões da mais-valia e do consumo indiscriminado, é que foram divinizando os objetos e substituindo os prazeres sagrados do erótico pelos processos de degradação e violência que tanto nos afetam a paz e a dignidade.

      E é por isso que os esforços para a restauração do erótico têm merecido tantos aplausos na modernidade, tanto por parte da psicanálise de orientação freudiana, que centra o seu ponto de apoio na liberação da libido reprimida, quanto na especulação de ordem literária, que aposta no discurso erótico como condução do fluxo narrativo em algumas vertentes da literatura, das quais Henry Miller e seus romances instigantes são representantes supremos.

      Os livros sagrados de todas as tradições religiosas, a eroticidade dos usos e costumes medievais e latinos, as culturas primitivas da América, as sodomias que marcaram a trajetória do Marquês de Sade, a filmografia dos grandes cineastas, as artes plásticas de tendência figurativa e neofigurativa e o mundo borbulhante das imagens torneadas de sedução e de beleza, que invadem, como nunca, o campo visual e auditivo, parecem nos trazer de volta a memória do erótico como o projeto de vida e esperança que nos cabe a cada minuto resguardar.

       As Aventuras do Professor Closeau (Fortaleza-Rio-São Paulo, Editora ABC, 2006), de Altere Aretino, é um desses livros que remarcam em cheio a tradição da eroticidade na cultura do Ocidente. Misto de ficção romanceada e ensaio crítico e erudito do naturalismo moral, este inventário de escritos sobre a vida e a obra de Jean Marie Pierre Closeau constitui um dos textos que se viram, de último, lançados no Brasil com imenso critério de justiça.

     Tal como Gandhi, Sócrates, Merton, Hermann Hesse ou Francisco de Assis, Closeau foi um apóstolo da compaixão e da bondade. Amante da filosofia, adepto do naturalismo e da liberdade dos sentimentos e impulsos que nos levam ao bosque dos prazeres e às seduções e fantasias do imaginário, Closeau nos toca com a sua mensagem de livre-pensador, esteta das esculturas de Apolo e dos desejos fesceninos mais imaginosos.

     Foi socrático, contudo, no sentido de uma prática discursiva que privilegia a inteligência dos seus discípulos e admiradores. Primeiro, em Paris e, depois, em Lyon e Toulouse, Closeau ensinou a teoria e a prática de uma certa didática do desejo, a partir de um empirismo que se pode dizer também aristotélico, pois via na relação causa/efeito de todos os ritos corporais o estágio último de realização da comunicação afetiva, o que foi contemplado, aliás com muita precisão, na versão brasileira dessa belíssima novela de costumes.

     O professor Closeau, como ensina o conteúdo maduro e profundamente humano desse livro, defendeu o predomínio da vida sensual reservada sobre a rigidez dos comportamentos histriônicos, a sobrevida das energias da libido sobre o psiquismo lógico dos raciocínios abstratos e, bem assim, o triunfo definitivo de Eros sobre as tentações terríveis de Tanatos. Foi um apologista dos prazeres do corpo (por mais elementares que fossem) em contraposição aos êxtases espirituais que tanto remarcaram certa tradição do sagrado. Via o corpo não como personificação de forças demoníacas, mas como o templo supremo da liberdade e da beleza.

     Em Closeau, a teoria e a prática se conciliavam de forma bastante harmônica e indistinta. O seu naturalismo ético, o seu anarquismo filosófico e a sua sede, sempre renovada, de formas e prazeres, levaram-no às práticas do frenesi e da satisfação orgiástica com um número sempre crescente de alunas, com as quais aprendeu e para as quais ensinou métodos antigos e modernos de satisfação sexual, quer pelas vias normais da relação sensual procriativa, quer pelas vias sodômicas e devassas que levam as energias do corpo até as vibrações maiores do espírito.

     A força das suas ideias e a sua prática sexual libertária, no circuito interno das Universidades ou fora do âmbito acadêmico da Europa, ganharam corpo em todos os quadrantes do planeta. A sua divulgação, porém, se fez um pouco atenuada no Brasil, onde a moral católica e ultraconservadora de direita tem bloqueado, há mais de um século, a difusão em cadeia da sua filosofia e do seu legado cultural.

     Em 2005, mais precisamente a 15 de outubro, decorreu o primeiro centenário de morte desse grande humanista francês. E enquanto a França reparou, em parte, a injustiça que o moralismo e a cultura livresca impuseram à sobrevida e à divulgação de suas ideias luminosas, o Brasil orgulha-se de ver publicado em Fortaleza esse livro pioneiro de Altere Aretino – As Aventuras do Professor Closeau.

     O autor desse instigante romance de costumes se esconde, infelizmente, sob um pseudônimo, pois não acha seguro que se divulgue abertamente o pensamento de Closeau. E dessa circunstância, é certo, faz o tradutor desse livro certa aura de mistério, que funciona para o leitor como uma segura técnica de romance, levando-o a duvidar se Altere é a) um alter ego de Closeau; b) o autor da versão primitiva do relato; c) o organizador da edição; d) ou ainda prefaciador do romance, quando da sua versão em língua portuguesa.

     Não importa. A publicação que ora se faz desse belíssimo livro na Terra de Iracema é comemorativa do primeiro centenário de morte de Closeau. Trata-se de edição bilíngue francês/português, onde o leitor pode cotejar a autenticidade dos ensinamentos do grande filósofo e literato de Paris, e saborear lances de naturalismo, de sodomias pansexuais e de compulsões prazerosas que esse livro revela.

     Pelas razões acima nominadas, não vou me deter no nome do autor. Mas como não posso desconhecer que o estilo é o homem, começo por apreciar a escrita e, por conseguinte, o estilo literário maduro que esse volume condensa. Detenho-me na sua linguagem literária de viés estético requintado e de criterioso acento polifônico: vozes por certo plúrimas de quem nesse livro faz do pensamento por imagens e do fluxo da narrativa descontinuada um dos grandes achados para veiculação da arte literária.

     Nesse livro de texto plural e instigante, o conteúdo da obra revela-se em pé de igualdade com a forma. E a glória de qualquer escritor que se preza, como sabemos, decorre justamente disso. Platão, príncipe maior dos ensaístas que pensaram com uma cabeça de filosofo, se fez arauto dessa modalidade de escrita. Assim também Montaigne. E Chamfort. E Chesterton. E todos os grandes moralistas. Impressionante, contudo, no caso desse livro, é a constatação de que a escrita se mostra toda ela carregada de eroticidade e se faz contra os princípios da moral e em defesa de uma estimulante estética do desejo. 

    E se assim não fosse, creio que não valeria recomendar a leitura desse livro. E nem caberia dizer que seu autor é uma grande vocação de escritor, que redescobre e revela uma nova técnica de romance, que renova o pensamento filosófico entre nós e que faz da erudição e do talento uma forma permanente de sedução e de beleza.

     Ainda que de forma passageira, esse livro lembra o poético Lolita de Nabokov, A Divina Relação do Corpo, de Alcides Pinto, ou ainda o polêmico Hieronymus Bosch em sua fase mais audaciosa. Não se trata de relato histórico, acredito. Trata-se de ficção e de memória. Memórias da liberalidade e das aventuras eróticas do autor. Lembra A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, mas nos remete, essencialmente, à eroticidade que refaz os caminhos do prazer. É ficção, por certo, presa aos encantos da verossimilhança e da modernidade que recria, a cada sentimento, a perfeição da arte literária.